IANA PORTO/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL - Muito religiosa desde cedo, Rose confirmou com o passar dos anos o que classifica como um "chamado para o voluntariado".

Levantar cedo, preparar o café, tomar um banho rápido. Arrumar a bolsa. Não esquecer o avental, os fantoches e a tiara colorida. Mas, principalmente, não deixar a pequena Imma Britto para trás. Ela é a cachorrinha que tem um papel fundamental nas visitas que a voluntária Rose Mary, 60, faz todos os dias a pacientes terminais em hospitais em Manaus (AM). Ela encara o ofício de colocar o projeto “Pet Terapia Amigo Fiel” em prática, uma missão. “Minha missão de vida é fazer a diferença por onde passo. Os pacientes renovam as esperanças na vida e deixam um pouco de lado a saudade que sentem de seus pets”, conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

Tudo começou há 4 anos. Nas idas e vindas aos hospitais em que já trabalhava como voluntária, Rose percebeu uma reclamação específica da maioria dos pacientes: a saudade de seus animais de estimação durante o período de internação. Ela, então, resolveu fazer algo a respeito. E, assim, colocou em prática o “Pet Terapia Amigo Fiel”. Pelo menos uma vez por dia, ao lado da pequena Imma Britto, elas faz visitas cheias de amor e alegria a seus pacientes. Dependendo da demanda do assistido, a “consulta” chega a durar até 3 horas.

Minha missão de vida é fazer a diferença por onde passo.

 

IANA PORTO/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

Rose classifica a tarefa que faz hoje como “missionária”. Isso porque, além de ser muito religiosa, ela conta com o apoio da Igreja Batista do Dom Pedro para fazer o projeto acontecer. Para ela, “levar a alegria que, às vezes, só um bichinho pode proporcionar, não tem preço”. Até o momento, este é o único projeto social que envolve animais e terapia assistida no Amazonas.

Mas o encontro de Rose com o voluntariado não é de hoje. Foi ainda na infância, mais precisamente aos 6 anos, que encontrou o que ela chama de “espírito voluntário”. Ela, que na época morava na Ilha de Itaparica (BA) — lugar onde nasceu –lembra que uma das primeiras vezes em que sentiu essa presença foi quando, em um Natal, sem nenhum incentivo de um adulto, deu sua boneca de pano novinha a uma criança em situação de rua.

Desde então, não parou de ajudar o próximo — e sentir um prazer enorme nisso. Já um pouco mais velha, começou a participar de distribuição de sopas para moradores de rua na região e também aprendeu a fazer artesanato com índios tupinambás. “Meu avô casou com a filha de um cacique da tribo. Acabei sendo criada com eles. Aprendi a trabalhar com cipó e outros materiais”, lembra.

Compartilhar amor é o trabalho mais dignificante que existe.

IANA PORTO/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL – Para manter o projeto em pleno funcionamento, além do apoio da Igreja Batista do Dom Pedro, ela vende artesanatos.

A falta de oportunidades na Ilha de Itaparica, levou a família de Rose para a capital, Salvador. Lá, ela continuou fazendo trabalhos sociais. Em um deles, no Hospital Irmã Dulce, absorveu todo o conhecimento possível sobre atendimento humanizado e hospitalar. “Foi uma experiência única”, lembra. Lá, organizava a pequena farmácia que havia dentro do hospital. “Aprendi a controlar a ansiedade, ter paciência e amor para organizar o que era necessário”. Ela passou 6 meses nessa função e, como o hospital era regido por freiras, até cogitou a possibilidade de se juntar a elas.

Mas um convite de uma tia para morar em Curitiba (PR), fez com que Rose mudasse de ideia. E, aos 22 anos, ela foi. Lá, além de iniciar os estudos em Ciência Política e Psicopedagogia na Faculdade Internacional de Curitiba (FACINTER), se casou e teve uma filha. Rose trabalhou como secretária em uma escola de bairro e, à época, também se filiou ao PTB (Partido Trabalhador Brasileiro). “Mas nunca larguei o trabalho social”, diz.

E nunca largou, mesmo. Muito religiosa desde cedo, Rose confirmou com o passar dos anos o que classifica como um “chamado para o voluntariado”. Um dos primeiros passos que deu para intensificar essa vontade foi voltar a estudar. O curso escolhido? Teologia. Depois, cursos de voluntariado hospitalar, além de capelania assistencial. A ideia de levar mensagens de conforto e esperança para pacientes internados, em situação terminal, foi o que mais a motivou. “Sempre pedi a Deus para poder ajudar a quem precisa.”

Um cão terapeuta pode mudar o humor e o estado de espírito de uma pessoa internada.

IANA PORTO/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL –
Muito religiosa desde cedo, Rose confirmou com o passar dos anos o que classifica como um “chamado para o voluntariado”.

Mais tarde, já com formação e experiência vasta trabalhando como voluntária, Rose chegou a Manaus e ali ficou. Inicialmente, o objetivo era apenas morar mais perto de sua filha, que já tinha fixado residência na cidade. Mas ganhou um propósito muito maior. Desta trajetória, nasceu o “Pet Terapia Amigo Fiel”: “A interação entre homem e animal pode ser transformadora. Um cão consegue melhorar a saúde física, emocional, mental e espiritual de crianças e adultos”, afirma.

Por enquanto, a Imma Britto, é a única cadela do projeto. Ela foi doada por um membro da igreja e segue um ritual minucioso para fazer as visitas, já que a utilização de animais em processos terapêutico exige treinamento e higiene. Rose conta que, entre os cuidados que toma, estão: tomar banho regularmente, não ter contato com outros cães (pelo menos até o horário da visita), limpar as patas com anti-séptico, além de usar spray bucal para cães.

Procuro combater a ideia de que não há mais saída.

IANA PORTO/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL –
Nas idas e vindas aos hospitais em que já trabalhava como voluntária, percebeu a saudade que os pacientes tinham de seus animais.

Para manter o projeto em pleno funcionamento, além do apoio da Igreja Batista do Dom Pedro, ela vende artesanatos que produz em feiras criativas e também pelas redes sociais. “Quero, por muito tempo, continuar fazendo a diferença por onde passo. Se cada um fizesse algo pela humanidade, certamente, teríamos um mundo melhor.”

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