Monteiro Lobato Sítio Picapau Amarelo

Nascido em Taubaté em 1882, José Bento Monteiro Lobato vai estudar Direito pela vontade do avô, Visconde de Tremembé, tutor do neto após a morte dos pais. Por sua inclinação, teria estudado Belas Artes, queria ser pintor.

Inicia seus estudos superiores na Academia do Largo de São Francisco na virada do século, e embora relate que a tenha achado em momento de afasia pós-vitoriosas campanhas republicana e abolicionista, sente-se atraído por dois mestres em especial: “Adorei Pedro Lessa e nunca perdi uma palavra de Almeida Nogueira. Eram artisticamente inteligentes.”

Na Academia, inicia sua vida de escritor e de editor – liderou a comissão editorial e produziu matérias para o jornal e para a revista do recém-criado Centro Acadêmico XI de Agosto. Fundou o grupo Cenáculo com os jovens escritores Godofredo Rangel, José Antônio Nogueira, Ricardo Gonçalves, Raul de Freitas e Albino de Camargo, que mais tarde morariam juntos formando a “República do Minarete“, instalada no segundo andar de um chalé amarelo localizado na Rua 21 de abril, no bairro do Belenzinho, na capital paulista.

Com o diploma nas mãos, no ano de 1905, retorna a Taubaté e decide pleitear o cargo de Promotor Público em Areias, cidade próxima. Consegue a nomeação, mas não o exercerá por muito tempo. Falecido o avô no início de 1911, deixa o cargo para tornar-se fazendeiro.

Tendo conhecido o Brasil urbano, a vida boêmia e intelectual na ainda pacata porém já efervescente capital da Província, que com seus 240 mil habitantes, muitos deles estudantes, já ostentava vida intelectual e boêmia, e tendo retornado à vida rural, em que as relações sociais eram pautadas por um controle e uma padronização avassaladoras (querem “arredondar o pedregulho”, diria o escritor), Lobato passou a ver o campo e as cidadezinhas do Vale do Paraíba como espécie de exílio, rincões estagnados no tempo. Dessa experiência nasceria seu primeiro livro, Urupês, reunião de ensaios, artigos e contos publicados originalmente no jornal O Estado de S. Paulo e muito bem recebidos pela crítica. É em um desses textos que aparece pela primeira vez o célebre personagem Jeca Tatu, caipira cujas limitações são atribuídas por Lobato ao descaso do poder público, e não às suas características pessoais ou etnográficas: “Jeca Tatu não é assim, ele está assim“, diria mais tarde o crítico escritor.

Foi apenas o início de uma longa e inventiva carreira. Nos livros Lobato encontrou o grande alento de sua vida. Além de escritor, foi editor e empresário do ramo livreiro. Fundou em 1918 a “Monteiro Lobato e Cia.”, a primeira editora brasileira – antes disso, os livros brasileiros eram editados em Paris ou Lisboa. Os historiadores da cultura apontam que Monteiro Lobato adotou uma política editorial revolucionária, tratava o livro como um produto de consumo, preocupava-se com seu acabamento, sua aparência, investia na qualidade gráfica, nas capas e ilustrações, sabia da importância da embalagem e do rótulo. Costumava dizer que “Livro é sobremesa: tem que ser posto debaixo do nariz do freguês“. O registro da época dá conta também de sua agressiva política de distribuição. Com edições de altas tiragens, os livros eram comercializados por vendedores autônomos distribuídos em uma vasta rede espalhada pelo Brasil inteiro.

E foi nessa época, no Natal de 1920, no auge de sua editora, que publicou o seu primeiro livro
infantil, “A menina do narizinho arrebitado”, que deu origem ao conjunto de obras sobre o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Com isso, inaugurou a literatura infanto-juvenil verdadeiramente brasileira. Antes de Lobato, os livros infantis eram reduzidos a contos folclóricos com teor moralista; autores como Hans Christian Andersen, Charles Perrault, Carlo Collodi, Irmãos Grimm, Lewis Carroll e James Barrie ainda eram desconhecidos dos leitores brasileiros. Monteiro Lobato não só produziu 26 títulos de literatura infantil, como introduziu grandes autores ao mercado editorial brasileiro. Peter Pan, Alice, Gato Félix, Dom Quixote e até personagens da mitologia passaram pelo Sítio ou tiveram suas aventuras originais recontadas pelas mãos de Lobato.

O escritor retratou a realidade brasileira e a mesclou com elementos da fantasia do imaginário infantil. O fantástico mundo de Narizinho, Emília, Pedrinho, Visconde de Sabugosa, Tia Anastácia, Dona Benta e de outros tantos personagens originais introduziu temas avançados aos livros infantis e trouxe para as crianças brasileiras propostas de reflexão. Tudo isso somado à preocupação de Lobato em desenvolver uma linguagem especialmente atraente às crianças.

A grande atração de sua obra, ponto comum em toda sua trajetória, de escritor a empresário, foi sua originalidade, o compromisso em não imitar modelos pré-existentes, em ser apenas ele mesmo.

Seja da leitura direta da intensa correspondência trocada ao longo de 40 anos com o amigo Godofredo Rangel, que sob inspiração da tela Le Soir, de Charles Gleyre, recebeu o auspicioso e poético título A Barca de Gleyre, seja por meio de trabalhos acadêmicos, sabe-se hoje que Monteiro Lobato sentiu-se profundamente identificado com o filósofo alemão Friedrich Nietszche, que dentre inúmeras máximas, proferiu o imperativo “seja você mesmo”. Em artigo publicado postumamente no jornal O Estado de S. Paulo em abril de 1953, sob o título “Confissões Ingênuas”, o próprio escritor revelaria: “Não fiz na vida outra coisa senão trilhar o conselho nietzscheniano, indiferente a censuras ou aplausos ou a interesses. (…) A função desse filósofo em minha vida foi sempre devolver-me a mim mesmo.”

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AZEVEDO, Carmen Lucia; CAMARGOS, Marcia; SACCHETTA, Vladimir. Monteiro Lobato – Furacão na Botocúndia. São Paulo: Senac, 1997.

AZEVEDO, Carmen Lucia de; CAMARGOS, Marcia; SACHETTA, Vladimir. Monteiro Lobato, Furacão na Botocúndia. Edição compacta. São Paulo: Editora Senac-SP, 2000.

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